quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A crítica da forma – o método de Bultmann

Fonte: Estudantes de Teologia
Escrito por Harvie M. Conn




No mesmo ano[1] em que Karl Barth publicou o seu comentário aos Romanos, também apareceram dois livros também na área dos temas neotestamentários que anunciavam uma nova mudança nos estudos críticos. Um dos livros era Die Formgeschichte des Evangeliums[2] saído da pluma de Martin Dibelius (1883-1947), que deu origem ao nome Crítica da Forma. O outro livro era de Karl L. Schmidt com o título de Der Rahmen der Geschichte Jesu[3] (1919) de onde veio o golpe de misericórdia dos círculos liberais contra a confiabilidade do que até esse movimento havia comumente aceito como o marco histórico do Evangelho de Marcos.

Além destes dois homens, o cerne desta nova mudança nos estudos do Novo Testamento veio associar-se com o nome de um homem. O homem era Rudolf Bultmann (1884), e o livro que transformou estes estudos foi History of the Synoptic Tradition (1921). A influência de Bultmann expandiu-se mais do que a de Dibelius. Em especial o que se adotou tão amplamente quanto a sua mensagem (e às vezes, mais do que ela) foi o método de Bultmann. Assim, muitos como Oscar Cullmann e Joachim Jeremias, ainda que tenham criticado as conclusões dos estudos de Bultmann, chegam as suas próprias conclusões por meio de uma adaptação dos métodos dos quais Bultmann foi pioneiro. Entretanto, na Inglaterra e nos Estados Unidos, os especialistas, ainda que “cautelosos quanto a disciplina que se associou de forma quase exclusiva com o nome de Bultmann” ainda sim subtraem as limitações da crítica da forma como tal, contudo, chegam “lenta e cautelosamente a aceitar o pressuposto básico da crítica da forma.”[4]

Esta aceitação não se limitou ao mundo ocidental. No Japão estão concedendo renovada atenção ao método de Bultmann. Um jovem professor de teologia deste país, comentou recentemente que “uma das contribuições de Bultmann é que criticou o conteúdo do Novo Testamento. E provavelmente não mais aceitamos o que declara o Novo Testamento somente por o diz. Vamos refletir de forma crítica acerca do que o Novo Testamento diz e se é historicamente verdadeiro, ou falso.”[5] Na Coréia do Sul durante os últimos dez anos aumentou a influência das técnicas de Bultmann.[6] A metodologia da crítica da forma foi acolhida com entusiasmo e é utilizada com distinta intensidade por estudiosos do Novo Testamento, tais como o Dr. Chun Kyung-yun do Seminário Teológico Hankuk e, mais recentemente, o professor Pak Chang-kwan do Seminário Teológico Presbiteriano de Seoul.

1. O pressuposto da crítica da forma é que não se pode confiar na Bíblia como relato fidedigno da vida e ensino de Cristo e dos apóstolos. Nas palavras de um cultivado contemporâneo da crítica da forma se lê que “o labor do crítico da forma é mostrar que a mensagem de Jesus, tal como chegou-nos nos Sinóticos, não é em grande parte autêntico, senão que recebeu o retoque da fé da comunidade cristã primitiva em suas várias etapas.” Para Bultmann a Bíblia não é a Palavra inspirada por Deus em nenhum sentido objetivo. Se bem que Deus fala aos homens por meio da Bíblia “objetivamente a Bíblia é um produto das antigas influências históricas e religiosas e deve ser avaliada exatamente como qualquer outra obra literária religiosa antiga.”[7]

2. A premissa fundamental da crítica da forma é que os Evangelhos são primordialmente produtos do labor compilador da igreja primitiva. Os autores dos Evangelhos trataram de unir várias tradições orais independentes e contraditórias que existiam na igreja antes mesmo que se escrevesse o Novo Testamento. Estas tradições orais também são por si mesmas totalmente dignas de confiança. Consistiam basicamente em ditos e relatos individuais referentes a Jesus e a seus apóstolos. A igreja os utilizou e juntou-os em forma narrativa, inventando lugares, tempos, e enlaces para unir as tradições independentes. Frases como as dos Evangelhos, “em um barco”, “imediatamente”, “no dia seguinte”, “numa viagem” – não são mais do que meros recursos literários que utilizaram os compiladores dos Evangelhos para unir todos os ditos e histórias independentes acerca de Jesus. Como K. L. Schmidt, um dos pioneiros deste método, declarou que “não possuímos a história de Jesus, temos apenas histórias acerca de Jesus.”[8]

3. O propósito do método da crítica da forma é analisar a história da tradição oral subjacente nos Evangelhos escritos. Os Evangelhos servem somente como matéria prima de nosso estudo para achar “o evangelho prévio aos evangelhos.”[9] Como a premissa é que a igreja primitiva organizou de forma artificial, de acordo com os seus próprios propósitos apologéticos e evangelísticos, os materiais dos Evangelhos num relato harmônico, o crítico da forma deve destruir essa harmonia artificial, tratar de descobrir as formas originais da tradição oral incorporada nos escritos, e em seguida reconstruir a tradição mais antiga, ou que melhor que seja possível.[10]

4. O primeiro passo para esta técnica é admitir que qualquer indicação que se encontre nos Evangelhos quanto à seqüência, tempo, lugar, etc., nem mesmo a história é confiável. Devemos recordar o marco da história para encontrar a estrutura do começo, as narrativas e ensinos separados que a igreja primitiva reuniu artificialmente.

5. Feito isto, as passagens específicas são classificadas em grupos como relatos de milagres, declarações controvertidas, aforismos e profecias. Cada um destes grupos tem uma forma fixa. Assim, pois, se ao encontrar certa tradição específica, mais ou menos semelhante a esta forma fixa, pode-se julgar se ela pertence a uma tradição primária ou secundária, a uma fonte inicial ou tardia, a uma tradição mais, ou menos confiável. Como um autor descreveu que “a crítica da forma determina a idade das histórias e ditos dos evangelhos examinando a sua forma da mesma maneira que um criador de cavalos sabe a idade do animal examinando os dentes.”[11] Quanto mais antigo for o relato, tanto mais confiável ele o é enquanto fonte histórica.

6. Os resultados desta classe de metodologia são sumamente cépticos, para dizê-lo com moderação. Para Bultmann o resíduo histórico se encontra acima de tudo nos ensinos de Jesus, não no relato de seus atos, e ainda menos no retrato de sua pessoa. Não há dúvidas de que Jesus viveu e muito realizou das obras que lhe são atribuídas na tradição estudada. Mas ele se mostra céptico quanto a todas as demais coisas. Bultmann escreve que “creio realmente que agora não podemos saber quase nada acerca da vida e personalidade de Jesus, sendo que as fontes cristãs primitivas não se interessam por isto e, além do mais, são fragmentárias e legendárias; e, não existem outras fontes acerca de Jesus.”[12]

Para o cristão ortodoxo há pontos de contato formais entre si e alguns dos pensamentos básicos de Bultmann. (1) A crítica da forma recorda-nos que o evangelho de fato conservou-se durante uma geração em forma oral, antes de adquirir forma escrita no Novo Testamento. (2) A crítica da forma também nos lembra que os Evangelhos não são relatos “neutros, imparciais”, mas testemunhas da fé do que creram os cristãos. (3) A crítica da forma não acertou ao descobrir um Jesus não sobrenatural. Todos os documentos do Novo Testamento, não importando a forma em que a crítica da forma os classifique, seguem refletindo a um Jesus sobrenatural, o Filho de Deus. (4) A crítica da forma nos recorda a índole ocasional dos Evangelhos. Foram escritos com uma ideia da ocasião e situação históricas específicas – Mateus para os judeus, Marcos e Lucas para os gentios. E como tais, expressam uma preocupação pela situação vital em que foram escritos e pela que se preocupavam. (5) A crítica da forma nos recorda que os Evangelhos não se interessam por detalhes geográficos ou cronológicos como a comunidade ortodoxa pensou anteriormente.

Mas todos estes pontos de contato com as ideias cristãs ortodoxas do evangelho resultam em última instância superficiais. Como Barth, o método de Bultmann é básico e essencialmente injusto com a natureza do Novo Testamento.

1. Se bem que é verdade que os Evangelhos nem sempre ofereceram uma narrativa contínua, mas isto não significa dizer, como argumenta a crítica da forma, que não exista um esquema histórico confiável sobre a vida de Cristo. Dentro dos limites de um esquema histórico amplo, cada evangelista distribuiu o seu material de acordo com os seus propósitos. É uma débil crítica a que exige dos escritores dos Evangelhos o que não pretenderam fazer. E resulta pobre a crítica que insiste que o empenho deles não é nem histórico, nem confiável. O prólogo de Lucas (Lc 1:1-4) é um claro indício da preocupação dos escritores dos Evangelhos por basear o seu relato na história. Os Evangelhos continuam sendo boas novas.[13]

2. A crítica da forma mostra-se injusta com os escritores dos relatos evangélicos. Reduz Mateus, Marcos e Lucas a meros compiladores de documentos e, aos Evangelhos a relatos que se contradizem. Tudo isto viola injustamente a unidade do relato evangélico. Os Evangelhos possuem uma unidade básica como testemunhos confiáveis de Cristo. Na realidade os diferentes Evangelhos não apresentam versões divergentes da vida de Jesus. Pelo contrário, cada Evangelho é uma testemunha de certos aspectos do único marco histórico da vida de Cristo que não foi completamente conservado. A crítica da forma não reconhece a diversidade da transmissão oral dentro da unidade dos relatos evangélicos.[14]

3. A crítica da forma separa o Cristianismo de Cristo. A grande premissa deste método de estudo é que a comunidade cristã, e não Cristo, exerceu o papel criador mais importante na produção dos Evangelhos. Todavia, a mensagem do Novo Testamento concentra-se, não na comunidade, mas em Cristo (2 Co 4:5). A igreja, do mesmo que Paulo e seus companheiros apóstolos, ela foi testemunha, e não uma criadora (1 Co 4:1-2). A sua maior responsabilidade não foi a criação de novas tradições, e sim a preservação e proclamação das antigas.

4. A crítica da forma separa o Cristianismo dos apóstolos como custódios da precisa tradição a respeito de Jesus dentro da igreja primitiva. Os apóstolos eram uma fonte autorizada de informação acerca dos atos e doutrinas do Cristianismo e de Cristo. Em Atos 1:21-22 menciona este controle estratégico que os apóstolos exerciam sobre a difusão do evangelho nestes anos de transmissão oral. A sua presença tinha como finalidade impedir que ocorresse precisamente a situação que descreve a crítica da forma. Os apóstolos eram a garantia de Deus da continuidade e integridade da histórica fé cristã.

5. A crítica da forma parece esquecer o pequeno lapso temporal que separa os atos históricos dos documentos escritos. O Evangelho de Marcos foi escrito na década de 60, senão em 50. Paulo recebeu o seu relato da tradição em meados da década de 30 (Gl 1:18). Muitos dos apóstolos e testemunhas oculares de Jesus viveram durante todo o período em que foram escritos os Evangelhos. Onde está o tempo necessário para recolher, criar e circular as “sagas” e “mitos” desta comunidade? Os sucessos da vida de Jesus não estiveram ocultos ao povo (At 26:26). O povo foi testemunha tanto da sua defesa, como do ataque ao Cristianismo. O evangelho surgiu em meio de uma história bem documentada. A crítica da forma não pode explicar tudo isto.


NOTAS:
[1] Em 1919. Nota do tradutor.
[2] Tradução: A narrativa da forma dos Evangelhos. Nota do tradutor.
[3] Tradução: O contexto da narrativa de Jesus. Nota do tradutor.
[4] E.V. McKnight, What is Form Criticism (Philadelphia, Fortress Press, 1969), p. 56.
[5] Yoshio Noro, “Transcendence and Immanence in Contemporary Theology: A Report Article”, Northeast Asia Journal of Theology (Sept. 1969), p. 64.
[6] Kan Há-bae, “The New Quest for the Historical Jesus” – Themelios VI, 2, p. 36.
[7] Este pressuposto é minunciosamente analisado por Herman Ridderbos em seu livro Bultmann (Philadelphia, Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1950), pp. 10-14.
[8] K. L. Schmidt, Der Rahmen der Geschichte Jesu (Berlin, Trowizsh, 1919), p. 317.
[9] Título de uma das primeiras obras produzidas por um crítico da forma norte americano, B.S. Easton, que trata da técnica (New York, Scribners, 1923).
[10] McKnight, op.cit., pp. 17ss
[11] Comparar com Kan Há-bae, “The New Quest for the Historical Jesus” – Themelios VI, 2, pp. 25-40.
[12] Rudolf Bultmann, Jesus and the Word (New York, Scribners, 1958), p. 8.
[13] B. Van Elderen, “The Teaching of Jesus and the Gospel Records” in Carl F.H. Henry, ed., Jesus of Nazareth: Saviour and Lord (Grand Rapids, Eerdmans Publishing Co., 1966), pp. 111-119.
[14] Ned B. Stonehouse, Paul Before the Areopagus (Grand Rapids, Eerdmans Publishing Co., 1957), pp. 123ss


Extraído de Harvie M. Conn, Teología Contemporánea en el Mundo (Grand Rapids, Libros Desafío, 1992), pp. 32-37.

Tradução e notas por Rev. Ewerton B. Tokashiki
15 de Fevereiro de 2012.

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